10 sugestões de como fazer uma mediação inesquecível em um evento

Ao longo da trajetória, já tive a oportunidade de participar de grandes eventos, tanto como convidado quanto como mediador. Entre eles, grandes economistas, acadêmicos, pensadores relevantes do debate público, inclusive com o então presidente do Senado Federal e alguns presidenciáveis.

Há metodologias e técnicas que podem ajudá-lo no desafio de mediar um evento. O texto abaixo é para buscar contribuir um pouquinho com a experiência que já tive para quem tiver essa oportunidade. Indico abaixo 10 recomendações que podem lhe ajudar a fazer bonito em sua apresentação. Elas se dividem em “antes do evento” e “durante o evento”.

ANTES DO EVENTO

1. Tenha domínio do evento

A primeira coisa a se questionar é entender a proposta do evento. Qual a finalidade da apresentação? Para isso, é preciso dialogar e alinhar expectativas com os responsáveis, e apenas a partir daí que se construirá a estratégia da apresentação.

É preciso ter também o domínio do local, para haver maior conforto em saber como controlar todo o ambiente. Exemplo: será uma apresentação em que o convidado e você ficarão sentados? Ele ficará no púlpito ou caminhará livremente pelo palco? As luzes do local incomodam o foco na direção do olhar? A cadeira é confortável? Como será o microfone? Lapela ou um que você segure em sua mão?

Um microfone na mão pode dar mais segurança para quem tem o hábito, enquanto no caso do uso da lapela é preciso ter uma boa postura, pois o microfone pode ranger. Se atente para saber qual intercorrência fazer se houver uma falha de sinal ou de bateria. Nesses casos, é preciso saber onde direcionar o olhar para poder pedir ajuda rapidamente.

O convidado e você precisará de água? Se perceber que o convidado está incomodado com a temperatura, como por causa da luz, pode gerar um desconforto não para o todo do ambiente, mas para o convidado. Assim, você pode oferecer um lenço ou uma bebida para tentar proporcionar maior conforto.

Tenha em mente que ter controle do evento é uma forma de deixar o convidado confortável a fim de que não interfira na qualidade do evento.

2. Atenção ao Dress code

O conforto também passa pela roupa. É importante alinhar qual o dress code (código de vestimenta) indicado para aquele evento.

Se a proposta do evento for de um ambiente mais leve e descontraído, é possível dispensar uma roupa mais formal, mesmo que esteja em ambiente de exposição.

A escolha da roupa precisa ser pensada conforme o ambiente e confortável. Uma sugestão é jamais estrear roupas ou calçados em apresentações, pois eventualmente podem causar desconforto.

Ao longo do painel, busque se preocupar em manter a roupa alinhada a fim de não desviar o foco do olhar. Idealmente, é indicado que se vista um degrau acima dos convidados em geral. Assim, se o evento for mais casual, uma camisa social já ajudará a cumprir essa premissa. Se todos estiverem de roupa social, utilize um blazer ou terno completo.

3. Não importa o que: vire um expert do assunto a ser tratado e com quem

Via de regra, mediações de eventos são ambientes controlados, havendo um tempo restrito e contado, sendo sequências de outras apresentações, então tudo precisa caminhar da melhor forma possível para o painel ser claro, objetivo e relevante. Contudo, isso acontece apenas se houver o esforço do trabalho prévio:

Não importa quanto jogo de cintura ou experiência você tenha, se dominar a temática e conhecer o convidado, a qualidade e a fluidez do painel será melhor.

Assim, um mediador precisa fazer o dever de casa: esse trabalho prévio consiste em conhecer quem é a pessoa que estará dividindo contigo a apresentação do painel.

Por mais que haja um tema previamente escolhido, o mediador pode ter uma participação mais efetiva, com as perguntas e conduzir a conversa..

Quanto mais se buscar informação, melhor. Quais as outras temáticas que o convidado costuma abordar em entrevista e comunicados?

Veja vídeos no YouTube, entrevistas, citações, matérias, documentários e vídeos que mostram o tom de voz com que o convidado aborda o tema. O convidado já escreveu livros? Leia-os na íntegra. Não há tempo suficiente? Leia excertos, resumos, críticas, tenha uma noção geral dos pontos-chave da obra.

Tudo isso lhe deixará mais próximo do convidado, e confiante para mediar o painel, tendo maior tranquilidade para trabalhar.

Alguns exemplos que posso compartilhar: Antes de mediar um evento com o ex-juiz e ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sérgio Moro, li Contra o sistema da corrupção, seu livro recém lançado à época. Não houve perguntas fundamentadas em relação com o que li no livro, optei por outras em virtude da temática daquele evento, mas apenas o fato de tê-lo feito me proporcionou maior segurança e confiança para aquele painel.

Além disso, assisti tantas entrevistas dele que, no momento do painel, já conseguia decifrar um pouco para qual caminho o pré-candidato à presidência da República iria. Nessas oportunidades, intervia para buscar tirá-lo um pouco da zona de conforto diante de discursos decorados e prontos a fim de extrair uma camada de profundidade maior, que o público almejava.

Um outro exemplo ocorreu quando tive a oportunidade de mediar um evento do Instituto Líderes do Amanhã com o humorista Cláudio Manoel. Na pesquisa prévia encontrei entrevistas dele falando sobre um documentário produzido e dirigido por ele acerca do humor no Brasil na ditadura militar brasileira. Fiz questão de assinar um serviço de streaming para assisti-lo, além de acompanhar temporadas do Casseta & Planeta e da TV Pirata, programas em que ele integrou, inclusive como roteirista. Esse trabalho prévio me ajudou a buscar expor ao público temáticas menos conhecidas a respeito dele.

Seminário de Inverno do Instituto Líderes do Amanhã, Pedra Azul, 2021. Leia sobre neste link e neste.

Contudo, nem sempre o speaker de seu evento é uma figura pública, havendo informações escassas a respeito deste. Nesse caso, a necessidade da pesquisa prévia é ainda mais fundamental.

Vivi isso especialmente em um evento com Paula Barcellos, CEO da Águia Branca. Empresária de perfil mais reservado, havia menos informações públicas disponíveis, então busquei atuar de outra forma. Naturalmente, li todas as informações e entrevistas prévias encontradas no Google. Porém, pesquisei mais sobre a empresa, o momento que estava passando naquele contexto, além de conversar com funcionários e outras pessoas que foram próximas de Barcellos a fim de ter um conhecimento maior dela, o que contribuiu para ter segurança para aquele desafio.

4. Antes do painel começar

Feito o dever de casa, antes do evento, uma vez estando com o entrevistado, se apresente, sem ser de forma ostensiva. Converse com o sombra a respeito de como está o mood, o humor, do convidado. De preferência, sempre com um bom tempo antes do evento, aborde o convidado em uma conversa. Por mais brifado que ele tenha sido previamente, o questione sobre qual conteúdo ele preparou, se está muito extenso, fale da limitação de tempo e destaque se haverá ou não interação com o público e perguntas.

É o momento em que você analisa a disposição e o humor do dia do convidado, algo que pode ser definitivo. Esse momento presencial faz a diferença, ajuda a transmitir tranquilidade e criar conexão prévia com o convidado. Se ele se sentir à vontade e você também, já é meio caminho andado para um bom painel.

Lembre-se: mediar um evento é como prestar vestibular. Quem faz o dever de casa bem feito antes da prova pavimenta 70% do caminho para o sucesso. Os outros 30% é no dia da prova (ou no evento).

DURANTE O EVENTO

5. Como sair de situações mais delicadas?

Cuidado com deixar o convidado constrangido. Até por isso, é importante que os temas sejam definidos previamente, para que o convidado não se sinta pressionado de forma deselegante. É possível extrair conteúdo no painel sem ser tão incisivo, fazendo o trabalho de conhecimento prévio e tendo ciência do propósito do evento.

Eventualmente, o convidado pode se alongar, então entre ele respirar ou entre um pensamento e outro, é possível aproveitar para inserir comentários que ajudem na construção e fluidez do painel.

Se o tempo estiver acabando, pode-se inserir um “para ganharmos tempo, gostaria que abordasse tal coisa…” 

Jamais faça cortes abruptos ao convidado, embora isso possa ocorrer. Todavia, não seja direto: “agora precisamos terminar”, “agora precisamos passar a outra parte”.. construa uma abordagem mais leve ao fazer isso a fim de realizar uma boa costura.

Quando o convidado fizer alguma piada, tenha reações, interaja com ele ou com a plateia. Talvez seja até o momento para aproveitar e ajudar a lhe conduzir para outra temática caso seja conveniente.

Preste atenção em toda a exposição do convidado para evitar fazer perguntas em que já houve uma resposta. Afinal, as pessoas estão interessadas em algo a mais, não repetir aquilo que já foi dito.

Caso o convidado faça uma fala de um tema mais controverso para o contexto daquele ambiente, você pode indagá-lo de formas mais sutis. “Poderia falar mais sobre isso?”, ”Esse pensamento causa polêmica para muitos dos convidados… poderia abordar em mais detalhes?”, “Ainda cabem dúvidas sobre determinada abordagem… o que você poderia falar mais a respeito para que não haja dúvidas sobre?”. Todavia, jamais faça o contraponto imediato a fim de não causar constrangimento ao convidado.

Uma regra desses eventos é que se o convidado não quiser responder, ele não irá responder. Se não for algo muito delicado ou fora da curva, você pode deixar essa questão passar a fim de evitar constrangimento. Todavia, caso o convidado responda com poucas palavras, fica explícito que ele não quer continuar, então não é necessário trazer um resgate para a questão necessariamente. A não ser que você esteja em um evento cujo propósito é realizar uma sabatina do speaker, como em um debate eleitoral, não é recomendável insistir — havendo o risco de gerar constrangimentos.

Lembre que o tempo nesse caso é sempre um inimigo, então evite se alongar em determinada temática se ela não for central para o painel, sob pena de ficar a percepção para o público de potencial desperdiçado.

6. Atenção ao tom de voz e às gírias

Saiba dosar ao falar no microfone. Não grite, não fale tão alto, pois o microfone não pode doer muito no ouvido das pessoas. Em oposição, não fale baixo demais para não parecer que esteja intimidado. O ideal é tratar o tema de forma tranquila, firme e que traga clareza.

Use o áudio a seu favor. Cuidado com as gírias, pois podem causar constrangimento. Afinal, dependendo dos convidados ou presentes, pode-se interpretar de forma diferente. Lembre-se que o Brasil é um país continental, então há dialetos e construções que nem sempre são utilizadas em outras regiões, ou que tenham conotações diferentes e até ambíguas. Melhor evitar.

7. Se errar a concordância de uma palavra ou pronúncia

Não tenha medo de corrigir, mas não peça desculpas, pois essa ação chama atenção e dá luz para o erro e para aquela falha sem necessidade.

Outra dica é sempre verificar previamente sempre o nome do convidado, se certificando como se pronuncia o nome corretamente. Na dúvida, sempre pergunte.

Em um episódio recente tinha quase certeza que o sobrenome de Renato Breia (fundador da Nord Research) se pronunciava de uma forma, mas era de outra. Indagar previamente nos bastidores evitou que eu cometesse uma gafe.

Podcast Acendendo as Luzes, do Instituto de Formação de Lideranças de São Paulo, com Renato Breia. 2022

8. Em caso de frio na barriga

O medo de errar é algo muito normal, independente do tempo de estrada e da expertise de cada um. Esse medo é minimizado com o hábito e a experiência. Um copo de água ao lado sempre lhe ajudará a limpar ou dar a sensação de uma garganta mais livre.

Há quem não goste de falar olhando para as pessoas, mas é um obstáculo a enfrentar. Não encare o público, busque olhar mais ao fundo ou olhar para uma pessoa conhecida e fixar o olhar nela.

O ideal é ganhar ou concentrar a visibilidade da plateia passeando, junto aos presentes. Outra opção é focar no convidado e quando ele estiver falando, olhar para os convidados e analisar a reação da plateia.

9. Conheça a plateia

Eventos grandes têm diferentes perfis de conhecimento acerca daquele tema. Então é importante saber a experiência da plateia para tornar aquele conteúdo acessível a todos aqueles que estejam assistindo. Tudo precisa fazer sentido no todo. Para eventuais dúvidas, recorra à organização.

10. Como improvisar

Improvisos acontecem quando você está confortável ou quando possui maior facilidade com o tema. Tudo isso é variado.

No caso de não ser uma área de domínio, jogue com a segurança, use as estratégias corretas de aprimoramento de conhecimento do convidado e seu perfil, conforme o ponto 3.

Se for de maior conhecimento, pode-se fazer ganchos, e isso soará de forma muito mais natural.

Um mediador acostumado a falar em diversos temas, terá em seu rol maior experiência retórica, que lhe ajudará a fazer uma construção para apresentações que muitos interpretarão como algo natural, mas na verdade foi construído ao longo do tempo.

Para isso, é necessário trabalho e estudo prévio, além da experiência, que trarão maior naturalidade à apresentação.

Dica bônus: prepare um roteiro!

Um painel em que esteja previsto 40 minutos de pergunta do público pode não ter, por exemplo, tantas perguntas ou engajamento dos presentes. Dessa forma, sempre prepare muito mais questionamentos do que o tempo lhe permitirá. Priorize as indagações de acordo com o contexto ou busque inserir algumas delas em meio à deixas da fala do próprio convidado. A construção de um roteiro prévio lhe ajudará a ter mais segurança e ter perguntas ou dados, evidências e números que eventualmente podem ser inseridos pela mediação no meio de alguma fala do entrevistado.

Considerações finais

É preciso deixar todo o ambiente o mais confortável possível, tanto na estrutura física quanto na relação com o convidado.

Toda essa questão de trabalho prévio é um conjunto, mas na hora da apresentação/mediação, trata-se de algo específico seu, é um ponto e um momento de brilho seu também, mas não exagere. Afinal, o mediador não pode transmitir a ideia de que quer ser a estrela do show, mas sim a de um auxiliar para elevar o nível do evento ao conseguir extrair mais conteúdos relevantes do entrevistado.

Se dedique de forma especial para que sua mediação faça com que aquele tema seja abordado de uma forma diferente e única para os presentes: vale a pena!

Luan Sperandio

Luan Sperandio

Luan Sperandio é analista político, cofundador do Instituto Livre Mercado e associado do Instituto Líderes do Amanhã. É ainda podcaster da Gazeta do Povo e colunista do Folha Vitória. Foi eleito Top Global Leader do Students for Liberty.